Autor: Carlos Eduardo Pereira

  • Isenção do IR e preços em queda: o fôlego chegou. Não o desperdice.

    De vez em quando, duas notícias boas caem no mesmo mês — e vale a pena parar para prestar atenção. A primeira: desde janeiro de 2026, quem ganha até R$ 5 mil por mês está isento do Imposto de Renda, uma mudança sancionada no fim de 2025 que beneficia mais de 15 milhões de brasileiros, com descontos parciais até R$ 7.350. A segunda: a inflação deu uma trégua. O IPCA registrou deflação de 0,32% em agosto, segundo o IBGE — ou seja, na média, os preços caíram no mês, e o acumulado em 12 meses recuou para 4,22%.

    Traduzindo para a vida real: para muita gente, sobra um pouco mais no fim do mês agora do que sobrava um ano atrás. E é justamente sobre esse “pouco mais” que eu quero opinar, porque ele é mais perigoso do que parece.

    Todo alívio no orçamento chega acompanhado de uma pergunta silenciosa: o que fazer com ele? A resposta automática, a que o mercado inteiro torce para você dar, é gastar. O salário rende um pouco mais, aparece a parcela “que agora cabe”, o crediário “que dá pra encaixar”. É assim que um respiro vira, em poucos meses, uma nova dívida — e a pessoa termina o ano tão apertada quanto começou, só que com mais prestações no caminho.

    Minha tese aqui é simples e vai contra a corrente: alívio pontual não é dinheiro extra para gastar. É janela de manobra para se organizar. A diferença entre as duas coisas é o que separa quem usa uma boa fase para respirar de quem a usa para se afundar mais fundo. E essa janela não fica aberta para sempre — deflação de um mês não é tendência garantida, e isenção de imposto não aumenta salário, apenas para de reduzi-lo.

    O que fazer com o fôlego, então? A ordem que eu defenderia é quase sempre a mesma. Primeiro, se existe dívida cara — e o rotativo do cartão é o exemplo clássico —, cada real que sobra rende mais abatendo esse custo do que em qualquer outro lugar; é o “investimento” de maior retorno garantido que existe. Segundo, se as dívidas caras já estão sob controle, esse fôlego é a semente de uma reserva de emergência, aquele colchão que evita que o próximo imprevisto vire a próxima dívida. Gastar vem por último, e sem culpa — mas depois, não antes, de o dinheiro ter feito o trabalho pesado.

    O ponto que eu quero deixar não é “não gaste”. É “decida você”. A diferença entre um mês bom que vira patrimônio e um mês bom que vira parcela está inteira numa escolha consciente feita no começo, e não numa reação no meio. O dinheiro que ninguém tira de você é o que você direciona antes que ele suma sozinho.

    O fôlego chegou. A pergunta que fica é honesta: ele vai virar tranquilidade lá na frente, ou só mais uma prestação? Dessa vez, a resposta é sua.

    Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação de investimento. As regras tributárias podem ter detalhes específicos para cada caso — confirme sua situação nos canais oficiais.


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  • 82% das famílias devem. Isso não é um defeito de caráter — é uma conta.

    Um número da Confederação Nacional do Comércio deveria estar em toda mesa de café do Brasil: em julho de 2026, 82% das famílias brasileiras estavam endividadas de alguma forma — o maior nível já registrado, pelo sexto mês seguido. Entre elas, 85,3% carregam dívida no cartão de crédito, e o brasileiro médio compromete 29,5% de tudo o que recebe só para pagar o que deve.

    Quando um número passa de 80%, ele para de ser sobre “os outros”. Se oito em cada dez famílias estão nessa situação, a dívida deixou de ser exceção e virou paisagem. E é aqui que eu quero cravar uma opinião que move tudo o que fazemos na Nexum: estar endividado, nesse país e nessa economia, não é sinal de irresponsabilidade, de preguiça ou de falta de caráter. É, na maioria das vezes, o resultado matemático de rendas apertadas encontrando o crédito mais caro do mundo.

    Insisto nisso porque a vergonha é o combustível que mantém a dívida viva. A pessoa endividada tende a fazer três coisas que só pioram a situação: esconde o problema de quem poderia ajudar, evita abrir a fatura porque dói, e toma decisões no susto — um empréstimo caro para tapar outro, o pagamento do mínimo para adiar a dor. Nenhuma dessas reações vem de burrice. Vêm de constrangimento. E o sistema financeiro, convenhamos, não faz questão nenhuma de que você olhe para os números com calma.

    Por isso, o antídoto não começa com disciplina — começa com dignidade. Antes de qualquer planilha, de qualquer corte de gasto, de qualquer promessa de “agora eu me controlo”, vem um ato simples e difícil: parar de tratar a própria dívida como um segredo sujo e começar a tratá-la como um problema técnico, que tem tamanho, tem prazo e tem solução. Um problema com nome e número perde metade do seu poder de assombrar.

    Na prática, isso significa fazer o que quase ninguém faz: escrever tudo. Cada dívida, o valor, para quem, a que juros, até quando. Parece óbvio, mas a maioria das pessoas nunca viu o total num só lugar — e é exatamente essa névoa que a mantém paralisada. Quando o mapa fica pronto, quase sempre acontece a mesma coisa: o problema continua grande, mas para de ser infinito. E o que é finito, dá para enfrentar.

    Não vou te dizer que existe atalho, porque não existe. Sair de 29,5% do orçamento comprometido é trabalho de meses, não de um fim de semana. Mas o primeiro passo não é pagar nada. É olhar. Olhar sem se julgar, do jeito que você olharia para o problema de um amigo que você gosta e não quer ver sofrer.

    Se 82% do país está no mesmo barco, talvez esteja na hora de parar de remar sozinho e no escuro. A conversa honesta com os próprios números é gratuita — e é onde tudo começa.

    Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação de investimento. Se estiver passando por dificuldades financeiras, considere buscar apoio e orientação especializada.


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  • A Selic caiu de novo. Seu cartão de crédito não ficou sabendo.

    Nesta terça-feira, o Comitê de Política Monetária do Banco Central cortou a taxa Selic pela quinta vez seguida, levando os juros básicos da economia a 13,75% ao ano. Nos jornais, a notícia veio embalada em otimismo: juros caindo, crédito mais barato, economia respirando. E é verdade — para quem financia um imóvel, para quem investe, para as grandes empresas, cada corte importa.

    Mas eu preciso ser honesto com quem lê a Nexum: essa boa notícia provavelmente não vai bater na sua conta amanhã. Porque enquanto a Selic é discutida em pontos percentuais, o rotativo do cartão de crédito — a dívida em que milhões de brasileiros caem quando pagam só o valor mínimo da fatura — chegou a 428,3% ao ano em março, segundo o próprio Banco Central. Leia de novo: quatrocentos e vinte e oito por cento. Não é erro de digitação. É a distância entre a manchete e a realidade de quem está no vermelho.

    Essa distância é o ponto que quero defender aqui. Existe uma tentação natural de esperar. Esperar a Selic cair mais, esperar o crédito afrouxar, esperar a economia melhorar para então colocar as contas em ordem. Eu entendo o impulso. Mas esperar o Copom te salvar do rotativo é como esperar a maré mudar enquanto o barco já está fazendo água. A taxa que decide o seu mês não é a que o Banco Central anuncia de Brasília — é a que está impressa, em letra pequena, na sua fatura.

    E essa segunda taxa você tem muito mais poder de mudar do que imagina. Não porque exista uma fórmula mágica, mas porque o rotativo é caro justamente por ser o caminho mais fácil e mais silencioso de se endividar. Ele não pede sua assinatura. Ele só espera você pagar o mínimo. Trocar essa dívida por uma linha mais barata — um parcelamento da própria fatura, uma portabilidade, até um consignado quando faz sentido — pode significar dividir por dez o custo do seu dinheiro. Não é sobre ganhar mais. É sobre parar de perder tanto.

    O primeiro passo não custa nada e não depende de nenhuma reunião do Copom: é abrir a fatura e descobrir se você está, sem perceber, pagando esses 428% ao ano. Muita gente está e nem sabe, porque o mínimo cabe no orçamento e a conta real fica escondida. Saber onde você pisa é o começo de sair do lugar.

    A Selic vai continuar sua dança — sobe, cai, os economistas discutem. Enquanto isso, a melhor decisão financeira que você pode tomar hoje é olhar de frente para a taxa que ninguém anuncia no jornal: a sua. Ela é a única sobre a qual você tem voto.

    Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação de investimento ou de crédito. Avalie sua situação e, se possível, busque orientação profissional.


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